Ameaçada pelo irmão, Adriano Trindade, Kelly Regina de 18 anos guardou o segredo da morte do pai por quase sete anos. Pai foi enterrado no quintal da casa onde moravam
Poderia ser o pano de fundo para um roteiro de cinema, mas é apenas a história de vida de uma menina de 18 anos que guardou a morte do pai em segredo durante sete anos. A doméstica Kelly Regina Trindade dos Santos presenciou, quando tinha apenas 11 anos, a execução do próprio pai, o pensionista Orlandir Gonçalves dos Santos, que foi morto pelo seu irmão mais velho, Adriano Trindade dos Santos, na época com 19 anos, e teve o corpo enterrado em uma cova rasa em um matagal na parte de trás da casa, em Itaipu, na Região Oceânica de Niterói.
Ameaçada de morte pelo irmão, que era envolvido com traficantes da comunidade do Rato Molhado, em Itaipu, ela e sua irmã mais nova resolveram se calar. Só depois da morte de Adriano, em 2010, Kelly conseguiu juntar coragem para revelar o que realmente viu. Durante todos esses anos os familiares, incluindo sua mãe, - a diarista Maria de Fátima Trindade Damásio – pensavam que Orlandir tinha abandonado a família e nunca mais voltou, por conta de desavenças com o filho, que acabou sendo o seu algoz.
Apesar de ser apenas uma criança quando tudo aconteceu, Kelly lembra de detalhes com aflição, mas sem mostrar em nenhum momento ódio para com o irmão, que sempre foi uma figura destacada do resto da família por ser idealizado pela mãe. Ela conta que tudo se passou no dia 31 de outubro de 2007. “Uma quarta-feira”, lembra a jovem.
“Eu estava em casa com minha irmã e resolvamos não ir à escola. Minha mãe estava trabalhando e então eu fiz o almoço. Ainda lembro: arroz, feijão e orelha de porco”, recordou. “Eu fiz o prato do meu pai e Adriano colocou algo na comida dele e disse ‘não se mete nisso não’ e levou para ele”, continuou.
Poucos minutos depois de comer metade do prato Orlandir passou mal e deu o resto da comida para os cães e se arrumou para ir ao hospital. Mas, no meio do caminho, ele foi impedido por Adriano, que motivado pelos constantes desentendimentos com o pai por ser usuário de drogas, o matou a pauladas com os troncos que eles usavam no fogão lenha.
Pouco depois que Orlandir saiu de casa, as meninas que brincavam de boneca no único cômodo da casa, viram os cachorrinhos que haviam nascido há pouco passarem mal e morrerem um por um, pois tinham comida envenenada preparada para o pai. “Adriano veio até eu e minha irmã, nos levou até a parte de trás da casa onde nos mostrou o corpo do meu pai caído no chão e disse que se a gente falasse alguma coisa para alguém ele iria fazer o mesmo com a gente”, lembra a jovem.
Depois disso Adriano pediu que as irmãs ficassem dentro da casa. Ele arrastou o corpo até uma mata localizada atrás do terreno da família e sepultou o pai em uma cova rasa que já havia sido cavada previamente, mostrando que o ato praticado foi premeditado nos mínimos detalhes. No dia seguinte, enquanto catava lenha para a mãe, ela encontrou a cova recém fechada no alto do morro. Ela marcou bem o lugar e levou a irmã até lá, mas as duas nunca disseram nada a ninguém. Pelo menos até agora.
“Adriano sempre foi protegido pela minha mãe. Quando ele foi preso, ela disse que ele foi preso por engano, mas todo mundo sabia que ele vendia droga na frente lá de casa. Ele me assediava sexualmente quando era pequena, me alisava e me abrigava a fazer o mesmo com ele. Tomei coragem e contei para minha mãe, mas ela disse que eu estava mentindo e ainda me bateu”, lembra.
Esse crédito que Adriano tinha com a mãe foi apenas uma confirmação que Kelly e a irmã tiveram para não contar o que sabiam. Elas tinham a certeza de que a mãe não iria acreditar nelas e que ainda poderiam sofrer algum tipo de represália por parte dela. Quando cometeu o crime, Adriano já havia sido preso acusado de assalto à mão armada e solto depois de cumprir a pena.
Segundo ela, caso ele fosse preso por conta da morte do pai, quando saísse da cadeia iria matar as irmãs por “darem com a língua nos dentes”. Adriano acabou sendo morto em maio de 2010, executado com um tiro na cabeça junto com outro homem, que era seu amigo e pode o ter ajudado a enterrar o corpo do pai.
Na época Maria de Fátima, sem saber o que realmente aconteceu, registrou o desaparecimento dele na 81ª DP (Itaipu). “Ele estava arrumado, calça jeans, camisa preta com mangas amarelas. Como ele estava com os documentos na carteira, ele foi enterrado com tudo, por isso todos pensaram que ele tinha fugido de casa”, destacou a jovem Kelly Regina.
Exumação do corpo - A Divisão de Homicídios de Niterói deve realizar até o fim da semana,uma operação para tentar localizar o corpo de Orlandir, em um local onde apenas a pequena Kelly Regina consegue identificar. Com o auxílio de homens do Corpo de Bombeiros, os policiais vão tentar exumar o corpo para que possam ser feitos exames de DNA para comprovar sua identificação.
Ainda de acordo com Kelly, a motivação para contar a real história sobre o sumiço de seu pai veio quando ela foi trabalhar na casa onde está hoje. “Na rua tem um senhor que manca e usa muleta, assim como o meu pai. Todas as vezes que o vejo é como se fosse um fantasma e isso começou a me fazer ter sonhos estranhos. Acredito que a muleta do meu pai deve estar enterrada com ele”, comentou.
Esse comportamento diferente foi percebido pelos patrões, que questionaram a menina e ela acabou revelando toda a história. Eles a levaram até a 81ª DP (Itaipu), onde o caso foi registrado e ela prestou depoimento ainda em novembro do ano passado. Uma equipe que investiga homicídios da distrital foi até o local para avaliar as dificuldades de exumação do corpo.
Como a delegacia de Itaipu está sem delegado titular desde que Gabriel Ferrando assumiu a delegacia da Rocinha, em dezembro de 2013, o caso foi repassado para a DH assim que ela foi inaugurada. Na tarde de ontem ela compareceu a sede da Divisão de Homicídios onde prestou depoimento e levou os agentes até o local onde o corpo está enterrado.
Confirmação da morte de Orlandir pode melhorar situação financeira - Segunda mais nova de uma família de cinco filhos, Kelly Regina, hoje, ajuda em casa com o que ganha trabalhando como empregada doméstica em uma casa de família no bairro do Cafubá, também na Região Oceânica de Niterói. A casa onde ela morava em Itaipu (localizada às margens da lagoa) era uma propriedade de posse que foi retomada por um corretor de imóveis que apresentou a escritura do local.
De origem humilde e sem ter como recorrer à ação, Maria de Fátima, líder da família na ausência de Orlandir, vendeu a propriedade por R$ 30 mil. Com o que conseguiu com a venda do imóvel, ela comprou uma casa simples no bairro de Várzea das Moças, em uma casa que não possui nem mesmo água encanada.
Kelly, a mãe, a irmã mais nova e um irmão que é deficiente, moram na casa simples e apenas conseguem ter água quando juntam das calhas de chuva em uma caixa de água colocada no quintal. No calor, ela disse que por vezes prefere dormir na casa dos patrões durante a semana e retornar para casa no fim de semana para poder ter acesso a água, por conta do forte calor.
Apesar das dificuldades que a vida lhe apresentou, Kelly continua estudando e está terminando o ensino médio e sonha trabalhar em restaurante. “Quando terminar os estudos, quero fazer gastronomia e trabalhar em um restaurante. Queria ser chef de cozinha”, revela.
A confirmação da morte de seu pai, que é dado como desaparecido, pode ajudar a melhorar a situação da família. Sua mãe não consegue uma pensão alimentícia porque Orlandir é dado como desaparecido, tendo fugido espontaneamente de casa. A confirmação da morte dele dá direito a Maria de Fátima a conseguir uma pensão do governo que vai ajudar nas despesas da casa.
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